— O que você está fazendo aí, Marquinhos? — perguntou o avô Manoel ao neto que lidava ali na bancada de marceneiro com ferramentas e tábuas de caixotes.
— Eu quero fazer uma caixa de engraxate — respondeu o menino, parando de serrar uma ripa.
— E para que você quer uma caixa de engraxate, menino?
— Ah! vovô. Você se lembra de que me contou que engraxava sapatos para ganhar um dinheirinho? Eu também quero ganhar um dinheirinho!
— Mas Marquinhos, você não tem de engraxar sapatos. Seu pai e sua mãe já dão tudo que você precisa.
— Eu sei, vovô. Mas quero experimentar para ver como é.
O avô acabou convencido pelo neto de seu desejo de ganhar dinheiro por conta própria e o ajudou a construir uma bela caixa de engraxar de um pé só, com tampa e sola invertida para não escorregar. O avô conseguiu a autorização dos pais depois de garantir-lhes de que o neto se estabeleceria com uma cadeira e a caixa na frente da loja do Sr. Abdias, seu velho amigo, que ficaria de olho no menino. Também comprou escovas, tintas e graxas para sapatos pretos e marrons. A mãe forneceu tiras de flanela e escovas de dentes usadas para completar o material do engraxate.
No sábado de manhã, Marquinhos colocou, encostada na parede frontal da loja de antiguidades do Sr. Abdias, uma confortável cadeira antiga e sua caixa de engraxar novinha. Logo percebeu que quase não passava ninguém usando sapatos. A maioria calçava tênis ou chinelos de dedo. Quando via um raro par de sapatos, oferecia seus serviços gritando: "Vai graxa aí, moço?" — imitando o avô Manoel quando era engraxate na rodoviária da cidade. Era quase meio dia e não ganhara nem um tostão furado. Já imaginou que ia ser difícil pagar o avô que tinha lhe emprestado dinheiro para comprar o material, ainda intacto ali dentro da caixa. Decidiu entrar na loja para avisar o Sr. Abdias de que iria dar uma volta na praça em frente, com a caixa nas costas, e ver se achava algum par de sapatos para engraxar. Estava ansioso para mostrar sua técnica ensinada pelo avô. Andou, andou e nada. Aí viu um mendigo mal vestido, barbudo, dormindo estirado em um dos bancos da praça com os pés calçados com sapatos pretos ralados e sujos. Como os pés do homem pendiam soltos na lateral do banco, resolveu engraxá-los de graça, apenas para matar o desejo de usar suas escovas, tintas e graxas. E ele caprichou. Limpou a sujeira com água e a escova pequena, secou com a escova grande, aplicou tinta preta nos ralados, depois espalhou a graxa com os dedos na superfície do couro, deixou um pé secar enquanto trabalhava no outro, escovou, bateu o pano e os sapatos do mendigo brilharam sob o sol do meio dia como se tivessem saído da fábrica. Depois, retomou sua cadeira na frente da loja e, por milagre, conseguiu engraxar mais dois pares de sapatos até o fim da tarde e, de certa modo, voltou contente para casa com algum dinheiro. Entretanto, concluiu que não valia a pena ficar lá o dia inteiro por tão pouco.
Mas, vamos ver o que aconteceu com o mendigo naquele sábado. Quando ele acordou, não acreditou no que seus olhos viam: seus sapatos estavam brilhando como novos. Levantou-se e percebeu que sua figura não combinava com a beleza de seu calçado. Saiu para a avenida e ao passar em frente a uma casa, uma mulher que estava no portão viu os sapatos tão vistosos do mendigo e perguntou:
— Ei, senhor, estou vendo que o senhor deve ter sujado e rasgado suas roupas trabalhando por aí e está usando seus sapatos novos. Eu tenho roupas de homem em casa para doar. O senhor estaria interessado?
O mendigo, surpreso com a atenção da mulher, nada disse, mas acenou timidamente com a cabeça que aceitaria sim as peças que lhe eram oferecidas. Agradeceu a mulher com um sorriso acanhado e continuou seu caminho com a sacola de roupas. Mais tarde, num canto da estação rodoviária, lavou-se o melhor que pôde com a água de uma torneira, vestiu uma camisa limpa de mangas longas e uma calça jeans quase nova. Parecia outro homem. Ao enfiar a mão no bolso da calça achou uma nota de cinquenta reais. Pensou em voltar na casa da mulher para devolver, mas depois lembrou-se de que a viu mexendo na calça jeans antes de entregar as roupas. Concluiu que a mulher tinha posto a nota ali de propósito para ajudá-lo. Naquele momento tomou uma decisão que há muito vinha protelando: não iria mais gastar dinheiro em cachaça. Ao invés disso, entrou na barbearia da rodoviária e pediu um bom corte de cabelo e barba. Agora sim era outro homem. Ele tinha esposa e filhos, mas havia abandonado seu lar com a vergonha de voltar bêbado, maltrapilho e sujo para casa. Mas agora, cabelos aparados, rosto bem barbeado, sóbrio, bem vestido, sapatos brilhantes, ele queria voltar para sua mulher e filhos. E ainda, antes de chegar em sua própria casa, outra coisa boa lhe aconteceu: ao passar numa grande loja de calçados na avenida principal, viu um anúncio de emprego para vendedor. Não teve dúvidas. Entrou, e sentindo-se confiante, conquistou a simpatia do gerente e conseguiu o emprego.
________
— Vô, tem um moço lá no portão, acho que ele quer falar com você.
— Bom dia, senhor. É aqui que mora um engraxate de nome Marquinhos? O dono da loja de antiguidades me informou...
— É aqui sim. Mas ele não é engraxate. É o meu neto. Aliás, ele só engraxou uma vez, num sábado, há mais de um mês...
— O senhor me permitiria conhecê-lo?
— Mas, por que o senhor quer conhecer o meu neto?
— Bom, seu neto deve ter te contado. Eu sou a pessoa de quem ele engraxou os sapatos no banco da praça...
— Sim, sim. Ele contou. Mas me disse que era um mendigo, bêbado e esfarrapado.
— Isso mesmo! Era. Não sou mais, graças a esse menino. O gesto dele mudou minha vida. Por isso vim aqui, para abraçá-lo e dar a ele um belo presente.
***